Dois mil e guaraná com rolha

06 dezembro 2013

Foto: Bianca Ogliari
A última pior convivência desse ano foi um padrasto usar a palavra “maravilha” ao receber a notícia que o corpo do seu enteado foi encontrado. Mas isso foi o menos surpreendente que eu ouvi esse ano. Em tempos como esse, eu não sei ao certo o que me sacia. Herança infantil da qual não havia se desfeito - a colega ao lado. 

Parece que meu Ensino Médio foi ontem, na verdade, terminou agora. Nunca mais química. Nunca mais pizza da “tia da cantina” na quarta-feira. 

Corri feito criança e isso superou todas as atitudes adultas mal sucedidas. 

Todos estão cansados: eu olho para os lados e os olhos estão cansados, eu tiro os óculos, eu limpo e olho de novo. Tudo está cansado. As cores do banco desbotaram com o tempo, não são tão velhos, mas estão manjados. É o banco que mais gosto, nunca mais sentarei nele, eu sei que “nunca” é muito tempo. Catalisei os excessos e cai em devaneios. O amanhecer empalidece intentos humanos-estudantes. 

Não achei mais a teia de aranha, cadê a aranha?! Mas a verdade, é que viver na inércia nunca nos levou a algum lugar, quem dirá a aranha. Dias bons e ruins existem desde que o mundo é mundo. Crenças não possuem respaldo de racionalidade. Oposição entre Ciência e Superstição é Guerra Mundial. O outro é o abismo, convivência é aprendizado. 

Dia com chuva e vento: tudo ia embora pra não voltar. O vento tem dessas, levar as coisas que fogem do nosso alcance. Mas aquele dia tinha a chuva, o que o vento não levou a chuva desmanchou. 

Quem dera ter feito o que não fiz. Se arrepender nunca foi um erro, a não ser que você goste de tabus. Quem dera fazer mais uma vez o que já foi feito. 

Os fins justificam os meios: passado e presente ainda consta no futuro. 

A convivência é fruto da educação, de geração em geração. 

Ainda se fosse apenas fome de alimento, mas é fome de um tudo, de um mundo. De não lamentar o que se pode ter. Fome do tamanho da humildade, do desejo da chuva, o barulho da água caindo no telhado, se é que tens, às vezes é melhor nem estabelecer limites entre o céu. Fome que não reclama e se contenta, mas no estômago grita.

Deus é a superstição da vontade, se parar para ver, é mesmo. 

O mundo gira da direita para a esquerda. Quando alguém pisa no seu pé na rua ou no ônibus a desculpa é à meia- voz. Eu nunca entendi isso, mas essa é a prova de que o homem veio do macaco. Ou não. 

Fim de ano é sempre a mesma coisa. Mentira, tô esperando uma volta de 360º. Mas diz que o ano novo vai ser igual. É sempre o começo. É sempre o fim. Sempre é muito tempo. Nunca também. 

Bacana não é legal – tive que colocar você de alguma forma. 

Os sinos das catedrais eu não escuto mais. 

Não consigo subir na árvore da minha avó, e é aí que você percebe quando cresceu.  

Tempo é o único medicamento que não tem na farmácia – mas nada morre, ou muda ou passa, mas não morre. 

"Mercadorama" existe em todo lugar. Em um intervalo de tempo que não se conta, o ônibus passa, eu mal respiro e ele passa. Tempo que nem o poema de bolso que fiz, cabe. Nem um verso. "Mercadorama" existe sempre para quem sabe encontrar, usar. 

Engulo sem mastigar. 

O amor é fato real da vida idílica, mentira, isso é casamento.  

O riso nunca foi sublimado, nem pela religião nem pelo misticismo. Esse riso é um sortudo.  

Mas a verdade é que anos ímpares nunca foram os melhores. 

Eu pisquei e o ano chegou perto do fim. Três ou quatro passos curtos daqueles a poupar meio pé. 

As coisas fluem conforme toca a música, mas a música não é tão boa quanto parece e eu não consigo trocar o disco. 

A teimosia é inimiga da convivência. 

As coisas andam juntas e no fim tudo volta ao começo, prontos, para mais um ano. 

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