Calcando com os pés em outro chão

18 janeiro 2014

Foto: Bianca Ogliari
De joelhos na areia, meus desejos escorriam como gotas geladas. 

O abraço da minha avó dizia para ficar, mas os olhos azuis dela fizeram me lembrar de que pelos quatro filhos mais os sete netos, ela percorreu estradas de trem à trem e hoje o orgulho dela é a sabedoria de uma vida inteira. A sabedoria de uma família.

Você aprende a respirar fundo e ir embora.

Se vão as uvas, as rosas no mar e toda essa tradição.

Mudar se torna a ocasião em que o mundo escapa à sua ordem miserável, exige de nós uma alma de cigano, uma ligação com a nostalgia.

Quando o mundo sinaliza um horizonte de mudança, as malas precisam estar vazias.

Com medo de arriscar o conforto, o chá pronto e a roupa lavada, você esquece de desapegar, e isso é um erro se o seu objetivo é abrir as portas para que o novo realmente entre e sinta-se em casa.

Aquela sensação de explicar para uma criança que seus brinquedos foram embora e não voltaram. Querer tirar a camiseta de baixo, sem tirar a que está em cima e ter que se desdobrar em mil sem tirá-la do corpo, quem nunca?

O escritor Ismael Caneppele, em uma de suas entrevistas disse que “habitar sofás é só um jeito de preferir não protagonizar o próprio tempo”.

A rotina é tão enraizada em nós que só morre meia hora depois do dono, depois de muito ficar agonizando, se contorcendo, querendo não sair.  Mas rotina é invenção, como todas as outras coisas que foram depositadas em nós. Por que nós, nós só somos nus. O que interessa é o que acontece, o que se deixa acontecer.

Para um religioso, rotina é essencial. Para um sábio, pecado.
  
E quando a lâmpada queimar, quem vai trocar?

Dizem que a vida é um acidente da matéria. Talvez por isso as mudanças sejam bem-vindas, bem findas.

Esses dias, li meio por cima, uma matéria que oferecia: “10 maneiras de mudar sua vida em 59 segundos”. Fiquei pensando que aquele segundo que falta para completar um minuto, deve ser o segundo em que você precisa se habituar. 
Ao contrário dos chineses, que viam o mundo em mutação, em que a mudança é cíclica. Algumas mudanças na vida não se estabelecem em um minuto.

Por isso quando se trata de mudanças, a paciência é inimiga da vontade.

Você tem medo de ficar no ponto sozinha, de andar de bicicleta na madrugada em uma rua que você nunca andou, você tem medo de queimar a roupa. Tem medo. Mas você faz.

Você deve saber que perguntar não mata. Aprender também não.

A melhor mudança é aquela que você vai com “uma mão na frente e outra atrás”.

Trocando de aglomerados. Lágrimas por conta da cebola e outras lágrimas. Aparentemente todos mal humorados, mas não é isso. Bem-vindo ao seu novo mundo.

Aqui faz em um dia as quatro estações do ano.

As conquistas vão de culinária até pagar contas. Era bom cozinhar quando era apenas hobby.

Da relação separada geograficamente o que sobrou foi seu calendário. O resto foi embora por que quis, eu falei pra ficar. Não ficou porque quis. Eu perguntei por que, mas essas coisas não se perguntam.

Nas despedidas de hábitos inúteis, situações e pessoas. “Nós comemos leões”. Comi uma selva inteira, sendo obrigada a dizer adeus. E o que sobrou foi seu calendário - o tempo sempre presente, de uma forma ou de outra para nos lembrar de que tudo passa.

Absolutamente a solidão se faz mais presente e aí, quando a solidão é sua melhor amiga, que você aprende a conviver com você mesmo.

Lão-Tsé que explicou a expressão do “tão”, dizia que conhecer o outro é inteligência, sabedoria é conhecer a si mesmo.

Acredite, isso não é ruim como parece ser.

Quando você é obrigada a aceitar que o mundo é capitalista sim, depende se você lida com o capitalismo ou se ele lida com você.
  
Tempo de lembrar e tempo de esquecer.

Descobre-se, por fim, a sabedoria embutida no verbo deixar. Obrigatoriamente você aprende o sentido da palavra “reciclar”. 

Dizem que quando a gente muda, o mundo muda com a gente. 
E quando as coisas não saírem da forma que você planejou o melhor a fazer é gargalhar. No calor da confusão de um dia atribulado, quando perde a chave, queima o arroz, esquece o sal, perde o ônibus, é assaltado, etc. Tenta gargalhar depois.

Tanto faz o lugar, tanto faz o momento. Mais importante do que campo sensorial, para as coisas na vida, nem sempre é necessário um “jump”. Aceitar que não sabe - não se sabe de tudo - pode ser o começo. Até por que a única coisa que sabemos é que não sabemos de tudo.

Não tem receita para se habituar a mudança. Você precisa estar ciente de apenas algumas coisas: 
- Toda escolha tem em si uma perda. Quem vive de passado é museu, e nem sempre recordar é viver.
- O novo não é menos pior do que o velho.
- Algo sempre vai dar errado. É necessário saber andar em curvas e aprender a levar alguns tapas na cara.
- O processo de mudança às vezes é mais importante que a mudança em si. Toda mudança importante requer revisão de gostos, valores e regras. 
- Junte sua coragem com sua vontade e paciência. Em últimos casos, a fila do banco é o que menos vai te tirar do sério. 

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