Jornalismo com o homem que dorme na rua

23 fevereiro 2014

Foto: Bianca Ogliari
Não existe mais um público único para ter a informação, o jornalismo na mesa do café, ao contrário de tempos em que isso era privilégio da classe A, agora tem notícia direcionada para toda massa. Havendo várias perspectivas admissíveis sobre o que se lê. Das surpresas da vida, isso nem deveria chamar minha atenção, mas sobre tanto preconceito social e julgamentos falidos, chamou. Assim como o mendigo bonito, Curitiba tem o mendigo que lê, no linguajar deselegante.

Quando o dia começa ainda sendo noite, quando escuta a mulher indicando o próximo terminal, do lado de fora do ônibus, quando o silêncio vai acabando em Curitiba, eu estou saindo de casa. Diferente do céu e pássaros que eu via adormecer em um passado não tão distante, aqui eu vejo as pessoas que dormiram nas calçadas um tanto esburacadas, recolhendo o papelão, sacudindo a roupa. Uns com preguiça me olham por cima, outros nem acordaram com o barulho dos ônibus. Alguns esperam o cachorro parar de lamber o rosto e assim, levantam. Uns não acordam.

Entre todos e tantos, um lê o jornal. De pé com os dois pés juntos em cima do papelão, o jornal bem aberto, olhos arregalados e feições diversas, ele lê a notícia antes de mim, que faço Jornalismo. Na primeira vez eu olhei disfarçadamente e o péssimo dá história é o quanto nos surpreendemos com isso, apenas pela classe social que o mundo direcionou essas pessoas.  Todo dia é sempre o mesmo, lendo o jornal no mesmo lugar.

Levantei 2 horas antes do normal, saí de casa antes do normal, sem pressa eu queria saber das notícias do dia pelo senhor que muda de nome a cada dia, menos de lugar. Meio passo dado e eu solto como alarme “Senhor, pode me dizer qual é a capa de hoje?”, não precisou muito e seu Julio, que às vezes é Leopoldo e às vezes é João, me relatou o jornal inteiro. Recusou meu dinheiro para um café e ficou me jogando manchetes para a digestão, se eu não falasse “tenho que ir” seu Julio-Leopoldo-João seria capaz de me contar em detalhes as notícias.

Terminou com um “Deus lhe acompanhe, menina”.

Agora seu Julio-Leopoldo-João, sabendo da minha pressa quando passo falando um "bom dia" meio alto, lê alto o jornal em troca do meu "bom dia" para que eu saiba “de tudo” até por que como ele diz “você vai fazer o que eu leio”.  E para quem me pergunta por que eu escolhi Jornalismo. Essa é uma das minhas respostas. Se você atravessa a rua para evitar esse tipo de pessoa, eu sou o tipo de pessoa que atravessa a rua para evitar você.

3 comentários:

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  2. Você é demaissssssssss garota!!
    Admiro muito você e esse seu dom. Você vai longe!
    Adorei essa, e todas as postagens suas no blog.
    Beijos

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