Não se entregue ao efêmero

17 maio 2014

Foto: Bianca Ogliari
Amor começa em uma sexta à noite. Em maio. Começa no ônibus. Começa na praça. Na divisão de um quentão. Do nada. Como uma impertinência pelas trocas de informações. No descabimento de palavras. Risada no telefone. No pensamento vago o amor flui entre pensamentos e anula todo o resto. Dor de cabeça, resfriado, gastrite, mau-humor, chuva forte, vento na janela. Rodoviária. Aquela membrana que separa o impossível do possível morre em questão de segundos. 

O texto. As fotos de Buenos Aires. O filme favorito. O poema sem título. As leituras de trechos de livros. A blusa. O cabelo. O cheiro. O tato. Os olhos. As mãos. O calendário. A panqueca. São detalhes que vão percorrendo e percorrendo até perder o sentido, até voltar a ser somente mais um texto não tão excepcional, até chegar o reencontro depois de um tempo e ele apenas ser com um “oi” que passa longe do sussurro do vento, distante, bem distante. E assim com todos os outros detalhes. Mas isso não quer dizer que antes era ilusório demais, ilusório demais é o que não existe, o que não pode ser tocado. Sentido. Idealista é criar em cima do que já existe. Isso não acontece. Quando é amor. Quando é paixão sim.

Existe uma distancia enorme entre fantasia e amor – a maturidade ou a falta dela, explica isso.

Pra começar: Por mais civilizado que você julga ser, o mais centrado. Você vai sofrer. De manhã, tarde, noite e algumas madrugadas. Vai sofrer. Vai rir também. Entre intervalos de tardes, pôr do sol, bater a cabeça quando cair, comer um bolo, vai fugir, vai dar sempre um jeito. Desencontro e encontro. O abismo das coisas que nunca deveriam ter acontecido, mas aconteceu. Esse escárnio divino ao humano é a depressão profunda. Por quê? Por que somos humanos, acima de tudo.

Tem pessoas que nascem para ficar sozinhas. Coitado de quem se interessa pouco. Não espere de alguém que não ama nem a si mesmo, que ame você. Não espere ser feliz com alguém se você não sabe ser feliz sozinho e se o outro também não é feliz. Não espere do outro. Não espere. O tempo dirá e nada como um dia após o outro. Você tem coisas para fazer e esperar é algo que você literalmente, não pode fazer. 
Não espere lendo, apenas leia. Não espere tomando um sorvete, apenas tome um sorvete. Não espere no caminho de casa, apenas faça o caminho de casa. Não viaje esperando, apenas viaje. Não saia esperando, apenas saia. Não faça esperando, apenas faça. Não conheça esperando, apenas conheça. Não espere que um dia encontre, simplesmente encontre.

Amar é uma coisa, esperar é outra.

O pior do amor é o meio, começo e fim não é nada. A úlcera é o meio. É frente e verso, etc. Evite o prolongar do meio. Esse meio-caminho esburacado. O meio é angústia junto da felicidade, do carinho. O meio é a anulação de fatores, o meio é focado no outro. Pensar primeiro no outro não te faz alguém melhor, te faz alguém idiota. Mas pode viver o meio, quem aprender a lidar com o meio, aprende a face mais primorosa dos sentimentos. Aprende a disposição de caminhar rumo ao inferno. Mas recomendo um treinamento: vai se arrebentar inteiro. É como fazer rapel sem segurança. Se jogue, mas saiba levantar. É tipo campo minado. Personagem de desenho que sempre se dá mal. Não ame demais, ame menos. Quase tudo que existe nasce com prazo de válida. Aprenda.

Algumas coisas vão ficar, em forma de ferida, mas pode passar Merthiolate. Algumas datas, alguns perfumes etc. Aprenda a separar datas e coisas de pessoas/lembranças. Use o seu dia 16 de maio, por exemplo, para ser um dia legal, uma noite ótima. Esqueça que há dois anos tudo começou. Começou o que ia terminar como tudo na vida. Não espere o fim chegar para aprender que sempre é muito tempo. Aprenda antes. 

Acabar ninguém quer. Se precisar, vá a psicólogo, antes ouvir do outro mais uma vez o que você já sabe, do que pregar a sua vida em um sofrimento por vontade própria, por medo de dizer chega. No fim você precisa saber de uma coisa: você fez tudo por que quis. Amou por que quis, chorou por que quis, riu por que quis, beijou por que quis, abraçou por que quis, sofreu por que quis. Etc e tal por que quis. 

Não transforme lugares em pessoas, coisas em pessoas, lembranças em pessoas. Lugares são lugares, coisas são coisas, lembranças são lembranças. O ser humano não é o melhor ser vivo do mundo, não deposite muito. Não dê certezas quando você não tem certezas nem de si mesmo. Não espere certezas do outro que não tem certezas nem dele mesmo. A única pessoa (que pode) não te fazer sofrer, é você mesmo.
Sempre vão existir pessoas melhores do que você imaginava, e piores também. Aprenda da pior ou melhor forma, mas aprenda. Do chão não passa – “quem sete vezes cai, levanta oito”.

Razão tem limite, o amor também.

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