Que Brasil é esse?

24 outubro 2014

Foto: Bruna Teixeira
Quando eu era pequena, me ensinaram a respeitar os mais velhos porque eles sempre tinham razão e autoridade. Também aprendi que se estivesse em perigo deveria ligar para a polícia. Ganhei um pacote de bala Lua Cheia, comi todas as balas vermelhas enquanto passava a tarde fazendo a tarefa da escola, meu fígado atacou e eu vomitei o resto do dia. Descobri que o médico era o cara que curava nossas doenças e nos salvava quando fazíamos coisas erradas. Sempre via os políticos como pessoas que cuidavam da gente. Admirava todos eles. 

Eu cresci.

Pessoas próximas de mim desapontaram pessoas que eu amo. Achava que amizade era um laço extremamente inquebrável, até ler meus próprios amigos falando mal de mim. Que semana difícil foi aquela. 

Meu pai morreu no pronto socorro por falta de estrutura e de médico. Também vi no jornal que médicos batiam o ponto e voltavam pra casa dormir. No terminal do ônibus, uma senhora estava muito mal e a consulta com um especialista só era possível ser marcada para dali quatro meses - ela não ia durar duas semanas. Vi médicos descriminando nordestinos.

Vi nos jornais, policiais com prostitutas nos carros do município. Também vi policiais apreendendo drogas, xingando o adolescente de maconheiro, e mais tarde consumindo a erva. Vi policiais abusarem de crianças. Também presenciei o namorado-de-uma-pessoa-próxima subornar um policial porque ele estava com os documentos do carro vencido.

Vi políticos desviando da saúde para quitar um iate e as férias na Europa. Vi um sociólogo renomado xingar a presidente da república de gorda. Vi um estádio inteiro de futebol vaiar nosso maior representante político. 

Vi nossa gente descriminando imigrantes pela cor, pelo local de onde vieram. Vi gente morrendo por causa de um celular. Vi gente furando a fila e reclamando do governo corrupto. Vi uma nação indo para rua, pedindo mudanças e elegendo a bancada mas conservadora desde a "revolução" de 64.

A única coisa que eu não vi, foi algum tipo de justifica plausível. E era a única coisa que eu realmente queria ter visto.

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