Eu odeio lilás

08 novembro 2014


A natureza submete tudo o que vive ao jugo de uma exigência fatal: manter-se vivo. Nada escapa, do protozoário unicelular ao autodesignado homo sapiens, a preservação do nosso "eu" constitui da subsistência biológica, a auto defesa. Por que é assim, falar em guerra seria exagero – cataclismo esporádico à parte, há pelo menos tanta criação e exuberância quanto destruição e ruína no fluxo natural da vida pelo planeta.

E nós, seres humanos, só acreditamos na tragédia, violência e falência do ser humano, quando sentimos na pele. E não há necessidade de citar índices, estáticas, etc. para saber que a violência em Curitiba, e qualquer lugar, hoje, é estarrecedor.

Primeiro de novembro de 2014, quase cinco horas da tarde, na cidade sorriso, capital paranaense. Não corto caminhos, nunca tive medo da rua - atravessei a Emiliano Perneta, acariciei um cachorro de rua (o de sempre) e cumprimentei um amigo.

Segundo a numerologia, o número um é o número mais solitário de todos. O que é bem óbvio, mas ele é classificado como “lobo solitário”. Para os indígenas, o lobo é o mais fiel dos guias animais, também considerado um explorador. Porém, das histórias de infância, o lobo nunca foi amigo.

Alguns medos só surgem através da aprendizagem, que é uma reação presa no cérebro que só sai com o estímulo de compostos químicos que causam aumento da frequência cardíaca, aceleração da respiração e energização dos músculos. O estímulo? Pode ser qualquer coisa. 

Sempre caminhei rápido, distraída, mas não muito. Eu caminho olhando para o lado, algumas vezes. Só que, na verdade, nesse dia eu olhava para pessoa que estava caminhando atrás de mim. É uma mania - confie nas ruas, mas não confie nas pessoas. 

Nesse sábado, o funcionamento interno da minha mente pareceu refletir em larga distância, o modus operandi do aparelho perceptivo e do sistema metabólico, e a parcialidade natural dos sentidos e do corpo, dessa vez, erraram e eu não percebi que o sinônimo de medo estava caminhando atrás de mim. A covardia. 

Cheguei até a faixa de pedestre, abriu o sinal e esperei.

O tempo do sinal aberto foi o tempo que usei para projetar meu caminho e os passos de maneira mais cuidadosa. Para quem nunca teve medo de andar sozinha, aquela faca na minha cintura rompeu meu raciocínio e impediu minha reação. Finquei os pés no chão, como se no meu ouvido direito ninguém estivesse mandando eu seguir quieta. 

Insisti em não sair, achando que escaparia quando o sinal abrisse, o sinal não abriu. Virei, olhei para os olhos que nunca tinha visto e queria continuar sem ter visto. Soltei a mochila como quem entregaria tudo para fugir. O que se procurava não era a mochila.

Dei dois gritos de socorro que foram ouvidos, mas, não atendidos.

Segui quieta. 

Fui guiada durante duas quadras em ruas que não conhecia por um estranho que cuspia, e por uma faca pressionada na minha pele. Calada, mas não por que tinha recebido uma ordem, mas sim por que meus olhos encontravam os olhos alheio e aquela fúria me impedia de pensar. E, por mais que eu não acredite em homilias e “curas” em cápsula, em convencimento moral, eu uso uma pulseira de proteção, só que aqueles dentes amarelos e a pressão da faca na minha pele, fez com que Deus deixasse de existir, nem rezar rezei.

Ninguém sai de casa esperando ser assaltada. Quem dera eu tivesse sido assaltada. Seria melhor ver minha mochila saindo dos meus braços, do que ver todos os meus sentidos indo embora e percorrer duas quadras sem saber o fim daquilo. 

Dizem que nunca se reage, mas para quem aprendeu que toda ação tem uma reação - sem pensar, bati no braço estranho. A faca caiu e eu corri com lágrimas e suspiros de medo e desespero. Avancei um sinal aberto, por que, nessas horas, o nosso senso de juízo deixa de existir.

Corri até conseguir achar um lugar que aparentava ser seguro, e como foi muito difícil. O que levou alguns segundos para acontecer, para mim, pareceu eternidade, e tudo passou a ser sinal de suspeita. 

Apesar das besteiras ouvidas e da mão suja segurando meu braço, a faca, os dentes, o mal cheiro: “É foda ser mulher” – é foda ser humano. Basta estar vivo para as coisas acontecerem, sendo mulher ou homem, só basta ser humano. 

Eu odeio aquela camiseta lilás, aquela bermuda jeans e aquele boné preto, que me ensinaram, da pior forma, a ter medo do que nunca tive: andar nas ruas. 

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