Tchau, Kahlo

01 dezembro 2014

Frida aos quatro anos.
Foto: arquivo pessoal/Frida Kahlo 
Escancarada como sangue, dor inconformada da pintora mexicana Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, foi reproduzida no acervo de 240 fotos registradas por ela, seu pai, avô e uma fotógrafa alemã. A mostra, que chegou ao MON para arrancar algum sentimento individualista nos apreciadores, encerrou dia 30 de novembro - veio para apresentar agonia e dor e foi embora. Talvez, na época, sua vida fosse marcada por suas saias floridas de cores fortes. Flores mortas. As sobrancelhas, por fazer. Frida sempre preferiu apoiar-se em suas próprias verdades. Mas, no hoje, sua vida não passa de uma dor indescritível. 

Todos os limites que conhecemos como dor, mas que, para ela, adquirem um novo significado transformando-as em pinturas. Seus acidentes e sua bissexualidade mal interpretada. Seu estômago e útero perfurado e todas as outras doenças, levam a crer, para um não fã como eu, que, com toda certeza, ela foi paciente com a própria vida. Diego não saiu da minha cabeça. Não que a falta de respeito e talvez até amor próprio, egoísta de Diego, faz de Frida uma mulher digna de ser lembrada com santidade, mas não faz a salvação desse nome, para mim. 

A exposição conduz o interesse. O meu conduziu-se ao Diego Rivera, homem de paixões mal resolvidas, comunista de percorrer em suas veias seus ideais. Usava sua arte como forma de comunicação. Mas a forma como obrigou Frida a experimentar sua lesividade fez suas qualidades caírem a cada parede de fotos e frases rancorosas da pintora doente. Agressivo, como me lembrarei de Frida, mas, mais agressivo ainda, é como me lembrarei do amor, depois dessa conturbação de um casamento que já havia começado mal e não tinha sequer um motivo para terminar bem. 

O segundo acidente de Frida (ela fala em uma de suas frases - um dos piores, o comunista), Rivera aceitava abertamente os relacionamentos da pintora com mulheres, não aceitava os casos da esposa com homens. Por conta da não aceitação, o casamento foi ao fim. Diego mantinha um relacionamento com a irmã de Frida há muitos anos, ela os flagrou em relação sexual e, num ato de fúria, cortou todo o cabelo da irmã, que teve seis filhos com seu ex-marido. Frida nunca teve um. 

Vindas e idas, esse amor transcendental voltou em 1940, sem tirar as brigas violentas. Morando em casas diferentes, porem ligadas por uma ponte construída pela própria Frida. Para evitar brigas maiores, se encontravam na madrugada. Como quem tenta engolir o amor e vomitá-lo ao mundo de uma forma envergonhada. Tentando cultivar um sentimento singular demais que já foi vencido pelo tempo. 

O amor para Frida nunca floriu cor de rosa, parecia que era sempre os espinhos que se transformavam em foco. Fui duas vezes à exposição. Em ambas, saí daquela sala doente, conturbada e agoniante, como quem sai de uma guerra perdida. Mas é melhor sair doente à rir da sobrancelha, dos anéis e da história; como quem não sabe ler, ver e sentir, saiu de lá. 

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