Ela não anda, ela desfila(va)

06 abril 2015

Foto: Jüergen Teller
É definitivo. Gisele Bündchen deixará as passarelas. E a aposentadoria da modelo foi anunciada só agora por um motivo: Gisele celebra vinte anos de carreira em dois mil e quinze. 

A novidade é péssima para a moda, que perde sua última super modelo, e para o Brasil, que não tem outra ou outro representante tão influente na área. A gaúcha foi capa de mais de quinhentas revistas, conseguiu títulos como a de "Modelo do Ano" e "Modelo mais bem paga". Aos trinta e quatro anos, Gisele vai desfilar pela última vez para a Colcci, no São Paulo Fashion Week entre os dias treze e dezessete de abril. 

O desespero por trás desta notícia é grande. O Brasil é um país fraco quando se fala em moda. São inúmeras as cópias e plágios em nossos desfiles. Não existem ideias autênticas. E, se tiver, é uma ou outra. A moda brasileira é obcecada pela europeia e americana. E essa fixação é por nada. O nosso corpo, o clima, a situação financeira e gostos são diferentes. Não se trata de xenofobia, mas de ser realista para perceber que as nossas ruas não aguentam saltos extremamente altos;  de sentir o desconforto de uma modelagem mal feita, aquela peça que é indicada como "M" e, na verdade, é "P". 

Não venha me dizer que ainda temos Alexandre Herchcovitch, Reinaldo Lourenço e Ronaldo Fraga, eles não chegam perto da lovemarking que se tornou Gisele. O diferencial, além da estimada altíssima conta bancária, é que ela é um ser humano diferente. E isso vai fazer falta na moda. Como diria a jornalista Ana Clara Garmendia, a moda é feita de hábitos. Quais os hábitos de Gisele? Não existir, mas viver. 

Dos projetos como o suporte às vítimas do HIV, na África, a proteção da Amazônia, a contribuição para o Fome Zero e até a designação de embaixadora do Quênia, a brasileira construiu uma personalidade, não um estilo de vida. E a perda dessa identidade é o que mais assusta a moda mundial: as demais modelos começaram a colaborar em diversas causas, mas a vontade não é própria, a vontade é de conseguir fama e reconhecimento por meio disso. 

Gisele foi a última grande tentativa de mudança quando se fala em "corpo" e "moda". A brasileira trouxe saúde e vida para as passarelas, que eram e ainda são limitadas por um padrão de beleza que induz muitas pessoas para doenças como anorexia e bulimia. E também trouxe de volta o significado da carreira de modelo, que, agora, infelizmente, é dominada por celebridades temporárias. 

O afastamento da gaúcha vai acontecer aos poucos. O primeiro passo é esquecer os desfiles e dar atenção para a família e para a própria marca de roupas íntimas, a Gisele Bündchen Intimates. São vinte contratos que a super modelo possui e, com isso, vamos ter, em média, mais cinco anos de ensaios fotográficos protagonizados por ela. Até lá muita coisa pode mudar, inclusive para pior, pois a modelo tem condições financeiras de cancelar todos os contratos. Pensando por este lado, o desespero poderia ser maior.

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